DISCLAIMER: existe uma quantidade questionável da palavra “feedback” nesse texto. Você vai perceber.
Eu sempre me considerei muito boa em receber feedback no trabalho.
Vinha da época de CRM, onde tudo era mensurável. Tinha a hipótese, o conteúdo e o resultado. O feedback chegava claro: precisa melhorar na constância, essa copy ficou pessoal demais. Eu ouvia, não passava pano pra mim mesma, recalculava a direção e seguia. Simples assim.
O problema é que virar generalista em marketing é uma montanha russa de descobertas. Mais uma vertical, mais um contexto, mais uma coisa que eu não tenho a menor ideia de como funciona agora. É um eterno: era assim que eu entendia as coisas como especialista, mas como é que funciona no meu eu generalista, hein?
E junto com tudo isso cresce também a quantidade de pessoas avaliando o que você faz. Mais áreas. Mais perspectivas. Mais opiniões.
Foi aí que eu descobri que talvez eu não fosse tão boa em receber feedback quanto imaginava.
Aí começa o problema.
Elitista de feedback
Descobri que sou elitista de feedback.
Tenho critérios. Exijo um método. Talvez uma bibliografia. No mínimo, um exemplo concreto.
Porque tem gente que não sabe dar feedback.
E quando isso acontece, minha cabeça divide em duas: uma parte tentando absorver o que foi dito, e a outra parte pensando: nossa, que coisa ruim isso aí que você falou.
Quando alguém fala “isso está péssimo”, eu penso: sim, e eu faço o que com isso? Péssimo como? Péssimo onde? Em que momento gosto pessoal vira régua?
A questão não é nem o conteúdo. É que quando a entrega é ruim o suficiente, o conteúdo deixa de importar. Você para de ouvir o que foi dito e começa a processar como foi dito. E aí já era.
O feedback do feedback
Dizem que existem três coisas que não se pode retirar: a palavra dita, a oportunidade perdida e o tempo passado.
Mas tem uma coisa que esqueceram, e tenho certeza que se a frase fosse escrita por um startupeiro teria: o feedback ruim que jogaram na sua cara.
Já foi, amado. Não tem desfazimento. Não tem “não era minha intenção”. O estrago está feito e agora a gente processa junto.
E como dizia Foucault: se não sabe lidar com pessoas, faz vestibular e vai cursar TI.
(Foucault não disse isso. Mas devia.)
Como eu dou feedback (ninguém perguntou)
Quando eu entrego um feedback, eu penso na pessoa que vai receber. O trabalho pode não ter sido bom, mas será que criticar de forma vaga vai levar aquele profissional a algum lugar?
Não vai.
Então eu escolho as palavras. Penso no contexto. Penso no que a pessoa consegue absorver naquele momento. Penso se é o momento certo. Penso se o ambiente ajuda. Penso se eu deveria ter tomado mais água antes dessa conversa. Penso que estou pensando demais nisso.
E aí surgiu uma hipótese que eu definitivamente não tinha pedido para testar: talvez eu não seja tão boa em receber feedback no trabalho quanto sempre achei.
O que aconteceu, na prática: recebi feedbacks com entregas ruins e não consegui fingir que eram bons. Não consegui transcender, respirar fundo e seguir em frente. Precisei processar. Queria passar o feedback do feedback. Mas precisa?
O conselho que faz sentido e que eu não consigo seguir
Levei isso pra minha liderança numa 1:1. E ela me trouxe uma perspectiva boa.
Quem sabe dar feedback tende a crescer dentro desse contexto. Quem não sabe, uma hora percebe que tem algo para desenvolver.
Faz sentido. É verdade. Eu concordo completamente.
O que foi um pouco frustrante porque eu queria sair da conversa com razão.
Mas mesmo concordando,a minha vontade ainda é de apontar e falar: nossa, péssima a forma que você falou isso aí ein.
Mas aí entramos no péssimo o quê? Péssimo como? E eu percebo que também seria um feedback vazio. Que na maioria das vezes não é nem o meu papel. Que eu claramente tenho opiniões sobre coisas que não me pediram opinião. Que eu sou muito, muito enxerida.
Tem opiniões que podem ficar só na minha cabeça.
(Isso é mentira. Podem ficar na minha cabeça na hora. Mas depois eu vou vir aqui reclamar.)
Com nem tanto carinho assim,
Marketeira Cansada
P.S. Se você me deu um feedback ruim e está lendo isso agora: não é sobre você. É sobre a cultura. Mas também é um pouquinho sobre você.
P.P.S. Usei a palavra “feedback” 23 vezes nesse texto. Para mim pareceram 60. Ainda estou processando.
