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Episódio 06: A recessão da atenção (e o colega que não dorme)

A verdade é que a IA tem me consumido um pouco.

Já passei em processo seletivo por causa de um título de email. Não só pelo currículo ou pela experiência. Por uma frase com o tom certo na hora certa. São 14 anos assim: a escrita como diferencial, como porta de entrada. Posso não ter a menor ideia do que estou fazendo, mas pelo menos sei escrever sobre isso (vide essa própria coluna).

O colega que não dorme e leva o crédito

E agora esse diferencial tem um colega novo. Que não dorme, não tem bloqueio criativo, não fica olhando pro documento em branco por 20 minutos.

E quando alguém lê o que eu escrevi e fala “ficou ótimo, você usou IA né?”, esse colega leva o crédito sem nem estar na sala.

A IA é aquele colega do grupo que não faz nada mas leva todo o crédito. Só que esse nem precisa estar no grupo.

O que me incomoda não é que todo mundo agora escreve com IA. Tudo bem, a escrita pode ser lapidada. Brandon Sanderson e Stephen King concordam (escritores, não gurus do marketing, apesar de nada contra os gurus do marketing, 4Ps YAY). Você pode não saber escrever hoje e virar um escritor decente aos poucos.

O que eu não aceito é que ninguém lê.

Recessão da atenção (o nome chique do problema)

O conteúdo ficou tão fácil de produzir que ficou fácil demais dispensá-lo. Por que ler algo que foi gerado por IA se você mesmo pode gerar? Ou jogar no Claude e pedir os pontos principais?

Posso passar três horas escrevendo e editando um texto como esse e 90% das pessoas que chegarem até aqui vão achar que foi IA de qualquer jeito. Os outros 10% são quem me conhece e consegue identificar o sarcasmo e o pessimismo no meu tom (minha mãe é uma delas. Ela é fã. Não perco um episódio, ela disse. Orgulho materno desbloqueado via blog corporativo).

O problema tem nome chique: Recessão da Atenção. Eu sei que prometi não usar conceitos chiques de marketing, mas esse é irônico demais pra ignorar: para saber sobre a recessão da atenção, você precisa ter atenção. O mercado destruiu o recurso que precisaria pra entender o próprio problema. Lindo.

De hoje para amanhã vou receber 40 emails. Provavelmente abro um, seleciono o resto e arquivo. Meu celular fica no modo avião sempre que estou em casa (o que é sempre, porque trabalho home office). Todas as ligações que recebia eram spam ou cobrança.

Quando percebi que já me cobro o suficiente (e de graça, sem precisar de operadora), me perguntei pra que eu tinha uma linha de telefone. Agora só me comunico por WhatsApp, que eu particularmente odeio. O que de novo é irônico, porque sou comunicóloga de formação. Todos nós somos comunicadores porque nos comunicamos. Só é comunicólogo quem estuda a comunicação. E aparentemente quem estuda comunicação prefere não se comunicar. Ótimo.

Quando escrever virou convencer um algoritmo

E aí chega o SEO pra completar o quadro.

Porque não é nem sobre escrever bem. É sobre palavra-chave no primeiro parágrafo, palavra-chave no segundo parágrafo, voz ativa, palavras de ligação, H2 a cada 300 palavras. Escrever virou otimização. Você não está tentando se comunicar com uma pessoa, está tentando convencer um algoritmo de que merece existir.

Três horas de texto. Dois minutos de leitura. Nenhuma garantia de que o Google vai achar que vale a pena.

Dos textos que escrevo ultimamente, esse é um dos poucos que tem alma.

A solução é exatamente a coisa que eu sou pior

E sabe qual é a grande virada que o mercado descobriu pra resolver tudo isso?

Comunicação presencial. Relações humanas. O contato de verdade. Aquilo que não escala, não se otimiza e não tem palavra-chave. Evento, conversa, presença. O afeto como estratégia.

Faz sentido. Concordo completamente.

O pequeno detalhe é que eu passei 14 anos aperfeiçoando a escrita exatamente pra não precisar aparecer pessoalmente. Sou a pessoa dos bastidores. A que prefere mandar um email bem escrito a ter uma conversa. A que no meio de um networking profissional solta a frase de um meme de 2019 (mões, pões, o tempo voa Suely, o cardápio é esse) e passa o resto do evento se arrependendo de ter aberto a boca.

Então a solução para a morte do conteúdo escrito é exatamente a coisa que eu sou pior.

Ótimo. Amei. Muito obrigada.

Enfim. A escrita já não era tão valorizada. Agora é descartável. E a resposta é ser uma pessoa comunicativa e presente, que adora aparecer e conversar.

Meu problema é que eu amo escrever. E odeio aparecer.

E o pior de tudo? Mandei esse texto pro Claude revisar e fiquei me sentindo mal por estar falando mal dele.

Ele nem vai perceber. Mas eu percebi.

Com um carinho que a IA não consegue imitar (provavelmente),
Marketeira Cansada